Papiro de 1.600 anos pode preservar relato antigo sobre a descida de Jesus ao mundo dos mortos e sua ressurreição

Fragmento escrito em grego foi decifrado por pesquisadores da Universidade de Atenas e estava entre documentos ainda não publicados da Biblioteca Nacional da Áustria

Um pequeno fragmento de papiro com aproximadamente 1.600 anos pode preservar parte de um antigo texto cristão que descreve a morte de Jesus Cristo, sua descida ao mundo dos mortos e seu retorno por meio da ressurreição. A interpretação foi apresentada por pesquisadores da Universidade de Atenas, na Grécia, após a análise de um manuscrito escrito em grego e conservado na Biblioteca Nacional da Áustria, em Viena.

Com dimensões de aproximadamente 5 por 7,5 centímetros, o documento estava entre os papiros da coleção austríaca que ainda não haviam sido estudados e publicados. O trabalho foi conduzido pelos pesquisadores Amphilochios Papathomas e Marianna Thoma, que identificaram referências a uma figura que morreu, desceu ao reino dos mortos e aparentemente voltou a subir.

A leitura proposta pela equipe, no entanto, é considerada provisória. O material apresenta trechos danificados e palavras incompletas, o que impede uma reconstrução definitiva do conteúdo original.

O que diz o fragmento

Uma das passagens mais importantes do manuscrito foi interpretada pelos pesquisadores como uma referência a alguém que desceu ao Hades e retornou. Na tradição da Antiguidade, Hades era o reino dos mortos.

Segundo os autores do estudo, o sentido provável do trecho é que somente Jesus teria entrado nesse domínio e retornado por meio da ressurreição.

A interpretação foi construída a partir da comparação do texto com outros escritos cristãos antigos, incluindo passagens atribuídas a Eusébio de Cesareia, que descrevem o Salvador descendo sozinho às regiões da morte.

Os pesquisadores também identificaram uma palavra que pode significar “engoliu”, possivelmente em referência à morte. A hipótese foi relacionada a tradições cristãs que descrevem a morte como uma força incapaz de vencer ou reter Cristo.

O fragmento, porém, não apresenta uma narrativa completa da ressurreição, não menciona diretamente o túmulo vazio nem relata aparições de Jesus aos discípulos.

Texto pode ter sido parte de um sermão ou hino

A equipe acredita que o papiro possa ter integrado uma obra cristã que desapareceu ao longo dos séculos, possivelmente um sermão escrito por um líder religioso da época. Outras possibilidades consideradas são um hino, um comentário ou uma composição religiosa.

O outro lado do documento também apresenta conteúdo cristão. O trecho parece trazer orientações morais dirigidas a um leitor chamado de “andarilho” e contém um alerta contra seguir o “caminho largo” na expectativa de alcançar a vida.

Os pesquisadores identificaram semelhanças entre essa passagem e um sermão de João Crisóstomo, importante liderança cristã do século IV. Ainda assim, os danos no manuscrito não permitem determinar com segurança a relação entre os textos.

Como o documento foi datado

A estimativa de idade foi feita por meio da análise da caligrafia e da linguagem, comparadas com outros manuscritos antigos. Os pesquisadores consideram mais provável que o fragmento tenha sido produzido entre os séculos IV e V, embora admitam uma margem que vai do final do século III ao século V.

Não foi realizada datação por radiocarbono. Também não há informações precisas sobre o local de origem do papiro. A equipe considera que ele possa ter vindo do Egito, possivelmente das regiões de Fayum ou Hermópolis, mas essa hipótese não foi confirmada.

O estudo foi publicado na revista científica Tyche, em 19 de janeiro de 2026. Os pesquisadores esperam que a divulgação acadêmica ajude outros especialistas a identificar a obra original ou encontrar fragmentos que possam pertencer ao mesmo documento.

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