Exames cerebrais identificam dois padrões biológicos distintos em pessoas com autismo
Estudo internacional relacionou diferenças na conectividade cerebral a mecanismos genéticos e imunológicos; descobertas podem contribuir para abordagens de cuidado mais individualizadas
Uma pesquisa internacional identificou dois padrões biológicos distintos associados ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), a partir da análise da conectividade entre diferentes regiões do cérebro. Os resultados apontam para dois subtipos: um caracterizado pela redução da comunicação cerebral, chamado de hipoconectividade, e outro marcado pelo aumento dessas conexões, denominado hiperconectividade.
O estudo foi conduzido por pesquisadores do Instituto Italiano de Tecnologia (IIT), na Itália, e do Child Mind Institute, nos Estados Unidos, com participação da Universidade de Trento. A pesquisa analisou exames cerebrais de 940 crianças e jovens adultos com autismo, além de mais de mil pessoas neurotípicas. Também foram utilizados 20 modelos de camundongos para investigar os mecanismos biológicos relacionados aos padrões identificados.
Os dois subtipos corresponderam a aproximadamente 25% das pessoas com autismo incluídas na análise. Os pesquisadores ressaltam que os resultados não representam toda a diversidade do espectro, que pode apresentar outros padrões ainda não identificados.
Diferenças na comunicação cerebral
No grupo de hipoconectividade, os exames apontaram uma comunicação reduzida entre determinadas regiões do cérebro. Esse padrão foi associado a alterações em vias relacionadas às sinapses, estruturas responsáveis pela transmissão de informações entre os neurônios.
Já no grupo de hiperconectividade, foi observada uma comunicação mais intensa entre diferentes áreas cerebrais. Esse perfil apresentou associação com mecanismos relacionados ao sistema imunológico.
Para chegar a essas conclusões, a equipe combinou exames de ressonância magnética funcional com análises genéticas e bioquímicas. Primeiro, os pesquisadores identificaram padrões de conectividade nos modelos animais e, posteriormente, buscaram assinaturas semelhantes nos dados de neuroimagem humana.
As análises de expressão gênica reforçaram as associações: regiões cerebrais com menor conectividade apresentaram maior presença de genes relacionados às sinapses, enquanto áreas com conectividade elevada demonstraram enriquecimento de genes ligados à imunidade.
Possíveis caminhos para tratamentos personalizados
Os dois grupos também apresentaram diferenças discretas em avaliações padronizadas de características do autismo. As pessoas identificadas com hiperconectividade tiveram pontuações moderadamente mais altas em medidas de gravidade dos sintomas.
Segundo os pesquisadores, a identificação de padrões biológicos distintos pode contribuir para compreender melhor a heterogeneidade do autismo e desenvolver, futuramente, estratégias de diagnóstico, acompanhamento e suporte mais individualizadas.
A equipe destaca, porém, que os resultados ainda não estabelecem uma nova classificação clínica do autismo nem permitem determinar o subtipo de uma pessoa apenas com base em sintomas. São necessárias novas pesquisas, com amostras maiores e métodos aprimorados, para investigar toda a diversidade biológica do espectro.
O trabalho foi publicado na revista científica Nature Neuroscience, com o título Autism subtypes identified using cross-species functional connectivity analyses.



Comments