Manutenção da boa saúde bucal é crucial para evitar doenças

A higiene e a manutenção da saúde bucal são essenciais para o bem-estar geral das pessoas. Além de prevenir problemas bucais comuns, como cáries, periodontite e candidíase, a falta de cuidados com a saúde bucal pode estar associada a doenças sistêmicas, como doenças cardiovasculares, diabetes mellitus e Alzheimer. No Brasil, menos de 50% da população tem acesso a uma cobertura de saúde bucal adequada, que abrange um conjunto de procedimentos, tratamentos, exames e atendimentos oferecidos por planos odontológicos ou pelo Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com um levantamento do Ministério da Saúde (MS) divulgado em junho de 2024, a cobertura em saúde bucal no país é de cerca de 45%, bem abaixo da meta de 70% estabelecida pelo Ministério.

Manter uma boa saúde bucal é crucial, pois, como explica a professora Ana Carolina Fragoso Motta, da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp) da USP, a boca é uma importante porta de entrada para diversas doenças. “A boca faz parte tanto do sistema digestivo quanto do respiratório, e, por estar em contato constante com o meio externo ao comermos, falarmos ou respirarmos, é uma das primeiras áreas do corpo a ser exposta a microrganismos que podem causar doenças”, destaca.

A professora também salienta que a boca possui várias condições favoráveis à colonização de microrganismos, como bactérias, fungos e vírus. “Esses microrganismos, especialmente as bactérias, podem aderir aos dentes e próteses, causando doenças bucais. Em indivíduos mais suscetíveis, essas infecções podem ter repercussões em outras partes do corpo”, alerta.

Ela explica que a saúde bucal pode impactar diretamente na saúde geral do organismo. “Há muitos estudos mostrando que infecções bucais podem afetar vários órgãos e sistemas. Por exemplo, a combinação da inflamação causada pela doença periodontal e pelo diabetes mellitus resulta em um estado inflamatório sistêmico que agrava tanto a doença periodontal quanto o diabetes. Além disso, focos de infecção na boca podem intensificar reações inflamatórias em outros órgãos, como no caso de algumas doenças cardiovasculares e artrite reumatoide.”

A saúde bucal também pode agravar condições como diabetes e artrite reumatoide. “Há uma grande preocupação com as doenças cardiovasculares, como a endocardite infecciosa. Embora rara, essa condição grave pode ser causada por microrganismos presentes na boca que, ao entrarem na corrente sanguínea, atingem tecidos danificados do coração”, observa a professora. Ela destaca que a Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda a manutenção da saúde bucal e bons hábitos de higiene como métodos preventivos para a endocardite infecciosa.

Quanto às doenças neurodegenerativas, estudos recentes indicam que componentes das células bacterianas e mediadores inflamatórios podem afetar a função cerebral. “Pesquisas apontam uma associação entre microrganismos da doença periodontal e a doença de Alzheimer. Acredita-se que a carga bacteriana e o processo inflamatório ligados à periodontite possam intensificar a inflamação no sistema nervoso central, favorecendo o aparecimento da doença de Alzheimer.”

Hábitos cotidianos também têm grande influência na saúde bucal. “É essencial realizar a higiene adequada, escovando os dentes e próteses, e usando fio dental. Uma alimentação saudável, com moderação no consumo de açúcar, e consultas regulares ao dentista, pelo menos duas vezes ao ano, são igualmente importantes. Além disso, evitar o álcool e o tabaco é crucial, pois esses fatores aumentam o risco de doenças bucais, como o câncer de boca”, reforça.

Algumas condições de saúde, como o diabetes mal controlado, podem afetar a boca, agravando doenças periodontais e causando candidíase bucal. “Certos medicamentos, especialmente antidepressivos e ansiolíticos, também podem prejudicar a saúde bucal ao reduzir a produção de saliva, o que causa desconforto, alteração do paladar e aumenta o risco de doenças bucais”, explica.

Para os usuários de próteses dentárias, há cuidados específicos a serem seguidos. “É importante usar uma escova macia com creme dental, sabão ou detergente para limpar as próteses. A desinfecção das dentaduras pode ser feita com uma solução de hipoclorito de sódio ou outro produto apropriado. Uma dica caseira é deixar a dentadura em um copo com 200 ml de água e uma colher de sopa de água sanitária por 15 minutos, uma vez ao dia.”

As próteses sobre implantes exigem cuidados ainda mais rigorosos. “Essas próteses são fixadas em implantes, por isso é importante tomar cuidado extra com a higiene para evitar o acúmulo de placa bacteriana, infecções e inflamações nos implantes, como a peri-implantite, além de prevenir infecções fúngicas, como a candidíase. Como essas próteses só podem ser retiradas por um profissional, consultas regulares ao dentista, de preferência a cada 3 meses, são essenciais para garantir a limpeza adequada”, alerta a professora.

Além disso, Ana Carolina sugere algumas práticas adicionais para a manutenção da higiene das próteses sobre implantes. “A escovação diária pode ser facilitada com o uso de escovas específicas para alcançar áreas sob as próteses, como escovas interdentais ou escovas tipo unitufo, complementadas com a escova dental macia e o uso de fio dental. A frequência de retirada das próteses é importante para que o dentista possa examinar os tecidos sob as próteses, pois já há relatos de lesões benignas e malignas que foram diagnosticadas tardiamente devido à falta de remoção regular das próteses.”

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