Calor absorvido por oceanos em 2025 se equivale à energia de 12 bombas de Hiroshima
Os oceanos da Terra registraram, em 2025, o maior ganho de calor desde o início das medições modernas, na década de 1960. De acordo com um estudo publicado em 9 de janeiro na revista Advances in Atmospheric Science, as águas oceânicas absorveram 23 zettajoules adicionais de energia térmica ao longo do ano — um salto significativo em relação aos 16 zettajoules registrados em 2024.
Este foi o nono ano consecutivo de recorde no conteúdo de calor oceânico, configurando a mais longa sequência contínua de aquecimento já observada. A pesquisa foi conduzida por um consórcio internacional formado por mais de 50 cientistas, que desde 2018 monitoram sistematicamente a evolução do calor armazenado nos oceanos.
Segundo os autores, os dados reforçam o papel central dos mares no equilíbrio climático do planeta. Estima-se que mais de 90% do excesso de calor gerado pelo acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera seja absorvido pelos oceanos, que funcionam como o principal reservatório térmico da Terra.
Apesar de números dessa magnitude serem difíceis de visualizar, especialistas utilizam comparações para facilitar a compreensão. Um zettajoule equivale a um sextilhão de joules. Para John Abraham, professor de ciências térmicas da Universidade de St. Thomas e um dos autores do estudo, o aumento observado em 2025 corresponde, em termos energéticos, à liberação de energia equivalente a cerca de 12 bombas atômicas como a de Hiroshima despejadas nos oceanos. “Foi um ano de aquecimento absurdo”, afirmou em entrevista à revista Wired.
Em outras estimativas, essa quantidade de energia seria suficiente para ferver aproximadamente dois bilhões de piscinas olímpicas ou suprir mais de 200 vezes o consumo anual de eletricidade de toda a população mundial.
Apesar do recorde no conteúdo total de calor, a temperatura média da superfície do mar em 2025 ficou ligeiramente abaixo da registrada em 2024, considerado o ano mais quente da história recente. Isso, no entanto, não indica uma desaceleração do aquecimento global.
Especialistas explicam que fenômenos naturais, como El Niño e La Niña, influenciam a distribuição do calor nos oceanos. Enquanto o forte El Niño de 2024 elevou as temperaturas superficiais, o episódio mais fraco de La Niña no fim de 2025 favoreceu a transferência de calor para camadas mais profundas do oceano.
Para medir o conteúdo de calor oceânico, os pesquisadores analisaram dados dos 2.000 metros superiores do oceano — região onde a maior parte do calor é absorvida — com informações fornecidas pela NOAA, pelo Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus da União Europeia e pela Academia Chinesa de Ciências.
“O aquecimento da superfície do mar ocorre de forma mais lenta porque grande parte do calor é transportada gradualmente para as profundezas”, explica Zeke Hausfather, cientista da Berkeley Earth e coautor do estudo. Segundo ele, medições baseadas apenas na temperatura da superfície não capturam toda a dimensão do aquecimento global.
“O conteúdo de calor oceânico é, em muitos aspectos, o termostato mais confiável do planeta. É para lá que todo o calor está indo”, resume Hausfather.
O aquecimento dos oceanos tem impactos diretos e duradouros. Temperaturas mais altas intensificam ondas de calor marinhas, afetam ecossistemas, alteram padrões de circulação atmosférica e influenciam regimes de chuva. Além disso, oceanos mais quentes fornecem mais energia para tempestades tropicais intensas e eventos extremos de precipitação.
Os pesquisadores alertam que o calor acumulado não desaparece rapidamente. “Levamos cerca de um século para aquecer os oceanos nessas profundidades. Mesmo que as emissões de combustíveis fósseis fossem interrompidas hoje, seriam necessários séculos para que esse calor fosse redistribuído”, observa o cientista Kudela.
Dessa forma, o recorde registrado em 2025 vai além de um dado estatístico. Ele evidencia a persistência e a gravidade de um processo de aquecimento global cujos efeitos já estão em curso e continuarão a influenciar o clima do planeta por muitas gerações.



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