Lula chega em 2026 com popularidade maior do que há 20 anos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva começa seu último ano de mandato com índices de aprovação mais altos do que os registrados há duas décadas, quando buscava a reeleição, mas em um ambiente marcado por incertezas mais profundas. Em meio à polarização política, analistas avaliam que questões como segurança pública, insegurança econômica e a baixa conexão com segmentos como os trabalhadores informais podem dificultar o caminho do petista rumo a um eventual quarto mandato.
Em 2025, Lula enfrentou uma queda significativa de popularidade, alcançando os piores índices de seus três governos. Ainda assim, encerra o ano com uma avaliação de ótimo e bom superior à registrada no início de 2006, quando se preparava para disputar sua primeira reeleição, então contra o ex-tucano e atual vice-presidente Geraldo Alckmin.
À época, em dezembro de 2005, apenas 28% dos eleitores avaliavam o governo como ótimo ou bom, segundo o Datafolha — uma queda expressiva frente aos 45% do ano anterior, influenciada principalmente pelo escândalo do mensalão. Já em 2025, a aprovação presidencial subiu de 24% em fevereiro para 32% na pesquisa mais recente do instituto, aproximando-se do patamar observado no fim de 2024, antes da crise envolvendo o Pix. A desaceleração da inflação dos alimentos, impulsionada por uma safra recorde de grãos e pela manutenção de juros elevados, contribuiu para esse movimento: o IPCA do grupo alimentos e bebidas caiu de cerca de 7% para 3,88% em 12 meses.
Apesar dos números mais favoráveis, especialistas ponderam que o cenário econômico atual é menos propício do que o de 2006. Naquele período, a economia estava em aceleração, enquanto agora a expectativa é de crescimento mais lento, em parte devido aos juros altos. Ainda assim, indicadores como inflação, desemprego e atividade econômica iniciam 2026 em níveis considerados positivos.
No campo político, o contexto é distinto. A oposição enfrenta mais dificuldades do que o governo, afetada por escândalos, pela prisão de Jair Bolsonaro no âmbito da trama golpista e pela ausência de um nome competitivo consolidado. Além disso, o aumento de tarifas imposto por Donald Trump às exportações brasileiras e a atuação de Eduardo Bolsonaro nos EUA em defesa de sanções ao Brasil acabaram reforçando o discurso nacionalista de Lula, favorecendo sua popularidade.
Mesmo assim, analistas alertam para mudanças estruturais relevantes. Diferentemente de 2006, as redes sociais hoje exercem forte influência no debate público e no comportamento do eleitor. Temas como segurança pública e insegurança econômica ganharam centralidade, especialmente entre jovens e mulheres, e podem pesar contra o governo. Pesquisas indicam um deslocamento dos jovens para posições mais ao centro e centro-direita, além de maior preocupação das mulheres, sobretudo das periferias, com a violência e o custo dos alimentos.
A segurança pública tende a ser um dos eixos centrais da disputa eleitoral. Levantamento da Quaest mostra que 38% dos eleitores apontam a violência como o principal problema do país. O governo Lula não conseguiu aprovar, em 2025, propostas-chave para o setor, como a PEC da Segurança Pública e o projeto Antifacção, abrindo espaço para que a oposição domine o debate. Episódios como a operação no Rio de Janeiro que resultou em 121 mortos evidenciaram o potencial do tema para desgastar a imagem do presidente, sobretudo após Lula classificar a ação como “matança”, posição rejeitada pela maioria da população.
Cientistas políticos também apontam outros obstáculos à reeleição, como a fadiga do eleitorado, a pauta de valores morais e a dificuldade do governo em dialogar com novas demandas sociais. Embora tenha avançado em medidas econômicas, como a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, o Planalto teve menor impacto entre empreendedores informais — grupo que inclui motoristas e entregadores de aplicativos e que tende a ser decisivo numa eleição apertada.
Para analistas, trata-se de uma disputa marcada pela rejeição elevada e por margens estreitas. Em um cenário de polarização intensa, a eleição deve ser definida por poucos pontos percentuais, com a vitória recaindo sobre quem errar menos e conseguir dialogar com os segmentos ainda indecisos do eleitorado.



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